Carnaval 2010

O tempo da farinhada
É um tempo bem divertido
É quando as moças solteiras
Tentam arranjar marido!

(Quadra cantada durante as farinhadas na Ilha de Santa Catarina 
fonte: dicionariodailha.blogspot.com)

 


 

A  Farinhada

Relato sobre a farinhada feito por Zenaide de Andrade Souza, 
71 anos, moradora da praia do Sambaqui.

Quando me lembro das farinhadas (de mandioca), das colheitas do café, da cebola, do milho, do feijão, do amendoim, além das fornadas de rosca de polvilho, parece que estou vivendo tudo de novo. Passei todas as épocas em que o cansaço não atrapalhava, porque o trabalho era acompanhado de muitos momentos de recreação. 

Para fazer a farinha (de mandioca) era preciso ter o engenho, bois e recursos humanos. As farinhadas eram feitas no inverno quando a mandioca estava mais consistente, porque fora de época ela se tornava tenra e aguada. 

Várias pessoas trabalhavam na farinhada: o forneiro, o cevador, o emprensador e os raspadores de mandioca. Quanto maior o número de ajudantes mais rápido terminava o serão. 

À tardinha já se ouvia o cantar do carro de boi que vinha carregado de mandioca. As mulheres já começavam a amolar as faquinhas e a arrumar seus assentos com esteiras de palha de bananeira e banquetas que serviam para os homens. As mulheres usavam um pano enrolado no colo para não pegar nódoa na roupa. 

Nessa época a animação tomava conta da vizinhança, o cheiro da farinha impregnava o ar. Nas farinhadas saíam até namoro e casamento. As novidades da comunidade e do mundo eram contadas, uma verdadeira reportagem. 

Na raspagem tinha gente de todas as idades. Crianças, jovens e idosos contavam casos, cantavam quadrinhas e música da época. Até desafios eram feitos naquelas noites de serão. 

Os moços que queriam entrar no engenho batiam no portão e primeiro as moças olhavam por baixo da fresta para ver se os pés eram conhecidos (tipo do calçado, tamanho do chinelo, etc.). Quando terminava a raspagem, os rapazes ficavam esperando até que varressem o salão do engenho para começar as recreações e as danças. Alguns traziam cavaquinho ou violão. Era uma festa até bem tarde. 

Quando o forneiro estava forneando, a mesa do forno ficava coberta de pó de farinha que dava até para escrever recado para os rapazes marcando encontro, etc. Eles liam quando vinham provar a farinha. O forneiro não sabia ler e mesmo que soubesse, era tão querido que não faria fofoca. 

José Veríssimo Corrêa era nosso forneiro. Era uma pessoa de ouro, não sabia ler, mas conhecia os astros como ninguém. Sabia as horas em que a maré vazava ou enchia, conhecia tudo sobre a época das plantações conforme as fases da lua, sabia dizer as horas pelas estrelas. Paciente e compreensivo, era contador de anedotas e adivinhações. 

Alto e de barba grande, tinha um grande carinho por mim. Quando era hora de lavar a louça — e era muita, pois muitos trabalhadores comiam lá em casa — eu colocava o alguidar em cima da mesa e um “meio alquer” emborcado no chão para poder subir em cima e alcançar a louça no alguidar. Quando o seu Zé vinha jantar, dizia para mim: “Vai lá no forno mexer a farinha que o seu Zé enxuga a louça para ti”. 

Voltemos à farinhada. O biju, por exemplo. Era uma coisa deliciosa. Tinha o biju da caieira que se peneirava no forno mesmo, enrolava-se com uma faca como rocambole. O biju Mané Pança começava a ser cozido no forno e terminava na fornalha, com farinha de milho e amendoim enrolado na folha de bananeira. 

Enquanto se esperava que tudo terminasse, saíam as conversações dos mais antigos, ensaios para as festas, para as nossas brincadeiras dos domingos. Na brasa que ficava fora da fornalha se assava aipim, batata doce, banana, peixe — corvinas retalhadas, que o cheiro ia longe... 

Muitas pessoas traziam mandioca para fazer sua farinha no nosso engenho. Dessas pessoas se cobrava um terço da farinha e a família vinha ajudar e desfrutar das delícias também. Também eu, aos sete anos de idade, fiz uma rocinha de mandioca que rendeu meio alqueire de farinha. 

Uma pessoa bastante conhecida em Sambaqui foi a sinhá Rosalina. Ela faleceu com mais de cem anos. Às seis horas da manhã eu já estava com ela raspando mandioca. Ficava com a mão branca de nódoa. Eu, nesta época, tinha seis anos e só saía quando minha mão estivesse branca como a dela. 

Contava-me histórias e fazia boneca para mim e saquinho bordado. Dizia que tinha muito medo de “cachorro azedo” (maluco, bravo). Gostava de tirar ostra nas pedras, ensinava remédios de ervas e sabia muitas benzeduras, entre as quais a de afogado. Contava sobre a Revolução de 30 e a gripe espanhola que matou muita gente, inclusive a sua família. Perdeu todos os irmãos. 

No tempo da farinhada, tinha também as nossas brincadeiras de criança. Nossas praças eram os muros do bueiro em frente à casa da Jandira Gomes, antiga casa da dona Santa ou no bueiro do seu Durval. No lugar corria uma cachoeira e à noite floresciam lírios. Sentávamos ali contemplando a lua que fazia clarear todo aquele espetáculo do lado contrário do rio. Dali saíam as sugestões para as atividades de domingo. 

Na casa do seu Durval fazíamos teatro, vestíamo-nos de mascarados, combinávamos nossos passeios, que dificilmente iam a mais de três quilômetros. 

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O historiador Sérgio Luiz Ferreira ouviu Zenaide de Andrade Souza, 71 anos, moradora da praia de Sambaqui, e recolheu um depoimento interessante e detalhado sobre o cotidiano dos camponeses ilhéus nas épocas das colheitas. Um trecho do relato, constante na obra Histórias quase todas verdadeiras (Editora das Águas, 1998) — que inclui ainda causos e lendas das comunidades de Santo Antonio de Lisboa e Sambaqui — está resumido acima. 

Trecho de texto enviado por Rosana Bond ao site A nova Democracia


 

Uma tradição que resiste até hoje

Alguns engenhos de Florianópolis ainda hoje continuam fazendo a farinhada, como é chamada a produção da farinha de mandioca artesanal. 

De um lado agito, vida urbana; do outro, o mesmo ritmo há mais de dois séculos. Num recanto no interior de Florianópolis, fica a lavoura do seu Altino, de 85 anos. Ele é um dos últimos agricultores que planta mandioca para fazer a farinha em Santo Antônio. 

O aipim ainda é transportado em carro de boi até o engenho. A tradição é mantida pela família. Eles preservam um dos últimos engenhos de farinha da ilha. Para fazer a farinhada, todo mundo trabalha. Nas rodas, eles lembram antigas lendas. 

Depois de muitas histórias, a mandioca descascada é lavada. Em seguida, vai para o cocho do engenho. 

Em Florianópolis, funcionam apenas três engenhos de farinha tocados a boi. O mais antigo foi construído em 1860. O sistema utilizado nele é o de cangalha (um pau curvado onde é colocado o boi, que gira em volta do monte).Quando o boi anda, puxa a engrenagem. A roda bolandeira, que comanda todo o sistema, é de madeira de canela, peroba e rabo de macaco, que são madeiras resistentes para este tipo de trabalho. O boi tem o papel de girar; ele é a força motriz do engenho. 

Enquanto o boi anda, o cevador rala a mandioca. O resultado é uma massa úmida, usada como o ingrediente principal de uma série de pratos saborosos.

Para virar farinha, a massa ainda precisa escorrer na prensa. E fica lá de um dia para o outro. 

A farinha sai da prensa em torrões. Nesta etapa, as mulheres fazem questão de colocar a mão na massa. No engenho de farinha este é o trabalho preferido pelas mulheres porque este produto deixa uma maciez na mão que creme nenhum consegue fazer. 

O próximo passo é peneirar a farinha. Enquanto isso, é hora de acender o fogo. Depois de peneirada, a farinha vai para uma espécie de panela gigante. Ela é mexida o tempo todo para a farinha afinar e não encaroçar. O fogo não deve ser muito baixo, nem muito alto para não queimar a farinha. 

Quando estiver bem torradinha, aí virou farinha. Está pronta a farinhada!

Fonte: Site do programa Mais Você – Matéria do dia 16/01/2006